CLAUDIA ALENCAR

por Magaly Evangelista

É com grande prazer que começo a publicação de minhas entrevistas, tendo como foco principal o autoconhecimento!

Começo com minha linda amiga, atriz e escritora, Bacharel em Teatro pela Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). Com 32 trabalhos na TV, 23 no Teatro, 8 no Cinema e 3 Livros Publicados!

Veja só, faz 60 anos que este Planeta recebeu esta pessoa tão especial e amada, tão atenta ao andar do Universo!

Eis o motivo pelo qual ela foi a escolhida para iniciar este trabalho.

Ela sempre foi para mim, acima de tudo, uma pessoa muito autêntica! E se você tiver a sensibilidade de entender suas nuances de ‘cores’ terá nesta entrevista a chance de conhecer um pouco do universo deste ser ímpar!

Com vocês, Claudia Alencar!

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“Ansiedade é falta de delicadeza
com o andar da natureza.”

Magaly – Qual a primeira coisa que você faz ao abrir os olhos pela manhã?

Claudia – Fecho os olhos…(risos) essa já te respondi.

Magaly – E planos para o dia, você faz ao acordar?

Claudia – Sempre preciso ter planos. Invento coisas se não tiver trabalho fixo. Pela manhã o que me centra é meditar e depois fazer uma prática física. Sempre. Me dá chão, faz circular energia, me sinto uma pessoa alegre em ir fazer, em poder fazer e depois de ter feito. Realmente abençoada por ter tempo para isso e agradeço infinitamente. Yoga, bicicleta, musculação, dança, qualquer dessas atividades que revezo. E depois crio coisas para fazer. Cursos, ano passado fiz doze! E estudo quando volto e escrevo. Esse ano, estou fazendo meu livro e sento todas as tardes e escrevo, tudo isso além das atividades de casa, de mãe, dona de casa, compras, atividades culturais que devo ir, que quero ir…

A criação mata a morte, não é?

Magaly – Sim querida. Quanto mais estamos criando mais estamos vivos! E quanto mais nos conhecemos, mas temos este tipo de certeza. E por falar nisso, quando e por onde começou seu interesse pelo autoconhecimento?

Claudia – Comecei com Jung aos 26 anos, meu primeiro mestre a abrir as portas do inconsciente e do espiritual com “O HOMEM E SEUS SÍMBOLOS”. Em 1982 através de uma jovem que acabara de vir da África, onde aprendera o tarô, eu me iniciei nesse caminho esotérico. Colocou as cartas para mim e fiquei fascinada pelos arquétipos da vida. Comecei a me aprofundar, a jogar para amigos,voltei para Jung,que tem estudos belíssimos sobre o tarô, desagüei na numerologia e em 1988 já estava mergulhada na Cabala, como autodidata, porque ninguém estudava esse caminho, na época, que era só para homens acima de 40 anos. Eu violava as regras ortodoxas. Em meados de noventa encontrei a Sidhha Yoga, Ashtanga Yoga, Yengar Yoga e comecei a estudar as escrituras védicas junto com os livros de Louise Hay, Julia Cameron, Anthony Robbins e Milton Erickson, pai da Hipnoterapia.

Arte e espiritualidade aliadas à meditação passiva e à Yengar Yoga.

Precisamos das escrituras, da prática, dos mestres, para depois de degustá-los demoradamente, assimilar, nos nutrir e jogar fora o que não nos cabe nesse latifúndio.

É um caminho que não cessa, nem depois que o último suspiro se foi.

Tenho mais calma se faço minhas práticas cotidianamente. Fiquei mais tolerante, mais alegre, menos ansiosa, mais focada em meus desejos, mais paciente, e domo mais minhas emoções. Parei de fumar de um dia para outro, por exemplo, sem remédios, médicos, nada. Só com meu desejo e vontade.

As práticas espirituais – meditação, leituras, pratica da ética, da delicadeza, tolerância, práticas físicas – nos dão a alegria real e não ilusória do viver.

Mas é claro que às vezes me perco nas florestas da vida, pego atalhos que não deveria, volto a ser o ser primitivo que habita em mim e esqueço do meu ser divino e sofro. Sofro. E volto. Às vezes mais rápido à tona outras menos, mas não corro mais o risco de morrer nos meus abissais e me perder por muito tempo.

O tempo é nosso maior luxo e devemos usá-lo com nossa folia e garra.

Magaly – Lembro-me do livro da Julia Cameron que você me presenteou quando fazíamos “A Partilha”. É um livro realmente fantástico para desenvolvimento da criatividade!

Claudia – A partir dele eu fiz meu terceiro livro. Ele foi um impulso muito forte de desbloqueio criativo, de incentivo prático. Funciono muito na prática. Fazendo. Aliás preciso de teoria também: prática e teoria , para mim é tipo costas e frente. Duas coisas da mesma coisa.

Magaly – Você fala também de outros autores fantásticos como Anthony Robbins e Milton Erikson, ambos autores ligados a Programação Neurolinguística, você chegou a se aprofundar mais na PNL?

Claudia – Fiz dois workshops na década de 90 sobre Neurolinguística com uns professores aqui do Rio. Eu era a única atriz ali.

E um workshop com o discípulo direto do Erickson que veio ao Rio, no início de 2000 e outro em São Paulo com outro pessoal de lá. Tudo isso, para aprofundar meus conhecimentos de atriz e pessoal. Como atriz usei muito as ferramentas dos dois métodos.

Magaly – Você se considera uma pessoa religiosa?

Claudia – No sentindo usual dessa palavra, não. Considero-me uma astronauta de meus espaços interiores.

Às vezes encontro tesouros, encontro com minha verdadeira paz, fico alguns dias com ela, mas depois eu a deixo, por conta da vida que me enlaça, para mais tarde, a buscar novamente.

Nossos pensamentos são nossos serviçais e nós os donos deles, mas às vezes, eles se apossam do nosso trono.

Nós vemos a realidade como quisermos, ficamos viciados ou ficamos virtuosos, no sentido pleno e não moral.

Questão de escolha, mas para viver feliz isso é preciso, práticas espirituais diárias. Para se ter dentes saudáveis é preciso escová-los diariamente, passar fio, não comer doces, etc, etc…

Na vida a informação, vigilância diária é tudo que nos leva ao Paraíso.

Tudo na vida, para ser contente deve ser feito diariamente. Dar seu afeto diariamente, para a pessoa amada, pratica físicas, meditativas, intelectuais, bons alimentos… Assim, diariamente a felicidade acontece na folia dessa vida.

Magaly – Você fala “Nossos pensamentos são nossos serviçais e nós os donos deles, mas às vezes eles se apossam do nosso trono.”

Já teve momentos em que os pensamentos comandaram por mais tempo? Se a resposta for positiva, como fez para se realinhar?

Claudia – Muitos momentos. Consigo ter menos do que tinha aos 30 anos, por exemplo, aliás sou muito melhor do que era nessa idade e aos 40. Tanto espiritualmente como fisicamente, mas caio muito, peco, sou pecadora me confesso!

As emoções tomam conta, os cavalos saem a solta e até retomar já sofri e me lamentei demais. Mas não vou até o fundo mais. Fico triste, mas não deprimida. Me realinho meditando. Ficando quieta, cantando mantras. Com minhas práticas físicas. Dando-me alegrias como indo ao cinema, lendo um bom livro, fazendo coisas para mim, para minha alma e não focando no problema. Tento não focar. Tento me dominar, mas sempre é muito, muito difícil. Sei que tem a fase crítica – tipo um vício- e depois vai amenizando… sabendo disso como uma gripe, eu sossego mais e deixo a onda passar não sofrendo tanto.

A idade e a espiritualidade fazem isso com a gente. O sofrimento é menor… e a felicidade aumenta, vem mais rápido.

Mas caio, Senhor…. confesso que caio e sei que cairei sempre. Mas levanto mais rápido.

Magaly – O que é fé?

Claudia – Acreditar no melhor de si mesmo.Ter coragem de realizar seus sonhos. Coragem é fé.

Magaly – Já se sentiu sem fé?

Claudia – Uma vez. Uma vez na vida… Agora que percebi, muito obrigada, viu? E foi ano passado. Perdi a fé. Simplesmente me vi descrente, achando que tudo que fazia uma bobagem, que tinha me enganado esse tempo todo, pura ilusão, que a vida é dura sim, e é essa realidade cheia de vazios, de solidão, que a gente passa tentando preencher e se engana com teorias, se ilude com crenças e vai vivendo cegamente… Muita idade, né? A gente já não deu certo muitas vezes, já apostou e perdeu muitas e muitas vezes, já ficou sozinha, muita ‘lambada’ e aí cansa. Cansei. Cansei. Me deu desespero interno perder a fé. Mas me deu chão. Na verdade, há três anos faço terapia freudiana, coisa que nunca fiz tão intensamente e por tanto tempo e a realidade se impôs. Vi a cara dela. Eu que vivia de ilusão, sim, muita fantasia, tive que ver a realidade. Foi muito bom. Sofri menos.

Agora voltou uma fé mais real. Menos fantasiosa. Uma crença de que a vida vale a pena se há grandeza na nossa pequenez.

Então, faço tudo mais inteira, mais presente. Resgatei o presente o aqui agora do ator e do ser humano. O passo a passo “el camiñante hace el camiño.”

E foquei nas coisas que deram certo e não nas que não deram. Foco nas qualidades e não nos defeitos. E não me critico tanto. Parei com esse censor. Sou como sou e acho engraçado minha digital. Aceito e gosto.

Magaly – Você tem dois lindos filhos, que importância tem a família para você?

Claudia – Descobri minha divindade através de meus filhos. Somos deuses na terra. É um milagre criar um ser humano dentro de você. É um segundo milagre criá-lo muito bem, com caráter e alegria fora de você. Vivo milagres.

Palavras não explicam o milagre que é ter a benção de viver nessa bela família que tive a coragem de construir.

É uma pena que a maioria dos seres humanos não perceba os milagres que realizam em vida. Não percebam o Deus que os habita, nem reconhece o Deus que habita em todos e em tudo.

Somos todos UM só. E como um SER ÚNICO devemos ser mais delicados conosco.

(…)

“Ansiedade é falta de delicadeza com o andar da natureza”.

Magaly – Linda frase Claudia! E por falar nisso, você além de atriz, é escritora. Fale um pouco dos seus livros já publicados…

Claudia – Essa é uma das minhas “pílulas poéticas”, que está no meu livro “Sutil Felicidade”.

Agora para comemorar meu aniversário vai estar escrito no bolo:

“A LIBERDADE MORA DENTRO DE MIM”, foi o que descobri também.

Tenho 3 livros e estou fazendo o quarto. Uma delicia. Estava bloqueada, sem vontade ano passado. Fazia aqueles tais dos doze cursos _ interpretação, escrita, dança, canto, filosofia, saúde, teatro com Amir Haddad, etc, etc, mas queria escrever e não sabia como começar e começava, mas fugia… até que encontro meu consultor literário do terceiro livro – acaso!!! Acaso??? E digo do bloqueio e começamos a nos escrever ele sugere uma coisa e só de escrever para ele já falava ‘apoetado’ e assim fui tirando coisas já escritas e depois fui fazendo novas e hoje não paro!!! Preciso parar de criar poesias, para fechar o livro, e não consigo, levanto de madrugada para escrever tal a efervescência que me deu.

Aqui está esse danado que saiu de ‘sopetão’:

DORMI NADA.
POESIA ME ACORDA NA MADRUGADA.
FAZ ORGIA COMIGO.
NÃO ME LARGA.
DOIDA DESVAIRADA, ME DEIXA EXTASIADA.
QUER FAZER FILHOS.
EU SUBMETIDA FORA DOS TRILHOS
FICO LOUCA PELO SEU PERFUME DE PALAVRAS.
GOZAMOS JUNTAS SEM VIBRADOR
ELA NÃO SAI DENTRO DE MIM
NESSE MILAGRE DO AMOR
NOSSAS CRIAS NASCEM NO NOSSO SIM.

Magaly – E como é seu processo para escrever?

Claudia – Agora que desbloqueei escrevo como respiro, a toda hora. E sempre dou o que escrevo, para meu consultor. É importante ter alguém que lê e dê um feedback como um diretor em teatro. Como um guru que te mostra a luz do caminho, que acende sua chama com a chama dele, mas não caminha , nem ilumina por você.

Fundamental um professor, um guia, um mestre. O caminho é mais rápido e seguro.

Magaly – Como está a Claudia neste novo livro?

Claudia – Quase pronto. Em breve fecho o livro, paro de escrever e coloco as cenas em ordem. Vou tirar algumas crônicas e poesias mais, deixar mais enxuto, já fiz isso, mas terei meu bebê!!

O nome? Só depois de ver a carinha dele.

Estou sentindo as contrações do parto, ainda não vi o bebê …pode ter outro nome, por enquanto eu o chamo de “DELICADEZAS” ou “COMO SE MANTER DE PÉ”.

Qual você gosta?

Magaly – Eu gosto muito de “COMO SE MANTER DE PÉ.” Delicadezas pode fazer parte de um subtítulo…

E a Claudia neste exato momento?

Claudia – Comemorando meus 60 anos!! Re-nascimento.

Agradeço a meus pais por terem a coragem e o desejo de me colocarem neste Uni-verso.

Agradeço a meu Deus interior por me dar a coragem e disciplina de olhar em seus olhos e seguir seus ensinamentos.

Agradeço à vida por ser tão bela e eu poder homenageá-la com minhas criações.

Agradeço a meus amigos, você Magaly, linda, por estarem na minha estrada, usufruindo o perfume das flores e compartilhando as belezas do caminho e me dando a mão quando há uma pedra nele.

Beijo-te

Claudia Alencar

Julho 2010

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Claudia Alencar